Fotografia / Facebook Lourdes Filipe Martinho

Uma criança de 12 anos perdeu a vida no passado dia 22 de dezembro depois de ter ido duas vezes à urgência da Clínica CUF Almada, onde as queixas terão sido desvalorizadas pela médica que examinou a menina na segunda ocasião, horas antes de esta de ter entrado em paragem cardíaca já no Hospital Garcia de Orta.

O caso foi tornado público nas redes sociais pela própria mãe da criança, em forma de apelo, considerando inadmissível não terem sido feitas análises e exames na CUF quando a filha recebeu uma pulseira laranja, de doente muito urgente. Ao invés, foi lhe dito que a filha estaria a tentar chamar a atenção.

“Muita gente me tem perguntado a causa do falecimento da minha menina. Para mim é difícil estar sempre a repetir a mesma coisa, por isso vou relatar aqui o que aconteceu. Sei também que as pessoas não fazem por mal ao perguntar.

A morte, principalmente de uma criança, assusta toda a gente e muitos conseguem encontrar algum conforto quando existe uma explicação.

A Leonor na 3ª feira antes de as aulas terminarem deu um jeito às costas. Ela desdramatizou o caso porque diz que foi a pôr a mochila (que andava sempre extremamente carregada) ao ombro e que tinha sentido apenas uma pontada. Ainda foi à aula de dança e ao almoço queixou-se que lhe estava a doer mais. Não tendo aulas à tarde, ficou a descansar.

Na 4ª de manhã continuava com dores e estava com febre. Levei-a às urgências da CUF do Monte da Caparica. Foi a pediatra da Leonor que estava de serviço. Observou-a, pediu análises à urina para despiste de infeção urinária e como estas estavam com valores normais, medicou-a para um problema muscular que deveria à partida desaparecer em 3, no máximo 5 dias.

Na 5ª e na 6ª feira a Leonor tomou a medicação e, apesar de passar grande parte do dia deitada, já se levantava e já se conseguia sentar melhor. No entanto de 6ª para sábado não dormiu nada, porque não arranjava posição para se deitar que não lhe doesse. A medicação já não lhe atenuava sequer as dores.

Portanto, no sábado, dirigi-me novamente com a Leonor às urgências da CUF, já que tinha sido aí que ela tinha sido observada e onde lhe tinham dado a medicação. A Leonor entrou cheia de dores, com pulseira laranja (a 2ª mais grave).

Fomos atendidas por uma pediatra que nem a camisola lhe mandou tirar. Mandou aplicar-lhe por via intravenosa, a medicação que ela tinha estado a tomar em casa: diazepam, paracetamol e cetorolac.

A Leonor adormeceu quando estava a receber o tratamento (estava exausta), mas quando acordou começou novamente a gritar com dores. Além de ter tido que ouvir um enfermeiro dizer à minha filha que ela não podia gritar porque havia outras pessoas doentes, ainda fui chamada à parte pela médica que me disse que a Leonor não podia estar com tantas dores porque o que tinha tomado era muito forte.

Suspeitava que a situação fosse uma chamada de atenção porque ela tinha ido a caminhar normalmente para a enfermaria e só quando me viu atrás dela é que tinha começado a gritar. Mandou-me marcar uma consulta com um pedopsiquiatra porque ela estava na adolescência e que só nos conhecia há poucas horas, não sabia os problemas que nós tinjamos.

Disse ainda que se não passasse para marcar para um ortopedista ou para a pediatra. Perguntei-lhe se a nível de medicação havia alguma coisa que ela pudesse tomar já que ela não parava com dores e a médica receitou-lhe um emplastro.

De sábado para domingo foi a pior noite, a Leonor não parava com dores, nem sequer com medicação, nem no sofá, nem na cama. Medi-lhe a temperatura, tinha 34,7, estava a entrar em hipotermia, quando a fui vestir tinha o corpo com manchas roxas. Chamei o INEM. Quando chegou ao Garcia de Orta, a Leonor ia hipotensa e com taquicardia. Quando entrou, teve uma equipa de médicos e de enfermeiros que nunca mais a largou.

Fizeram-lhe análises ao sangue, TAC ao tórax, raio-x, tudo o que na CUF não fizeram. O sangue estava normal, não tinha pneumonia, mas a TAC ao tórax acusava o músculo cheio de sangue. Os médicos iam fazer-lhe uma TAC ao cérebro quando a minha menina entrou em paragem cardíaca.

A primeira vez conseguiram reanimá-la, na segunda o coraçãozinho dela não resistiu. Os médicos suspeitavam de uma infeção ou de a Leonor estar a perder sangue. Neste momento, aguardamos o resultado da autópsia.

Seja como for, há duas coisas que tenho que deixar aqui para todos os meus amigos que têm filhos: os hospitais privados não são melhores do que os públicos. A pediatria do Garcia de Orta é excelente e incansável. Tudo fizeram para salvar a Leonor e quando não o conseguiram ficaram devastados.

E, pelo amor de Deus, nunca acreditem que os vossos filhos ou netos têm dores psicológicas, sem lhes terem, feito todos os exames possíveis e imaginários. Ainda não sei do que a minha filha faleceu e até pode ser algum problema que ainda não tivesse sido diagnosticado e a CUF até tem excelentes profissionais, mas é inadmissível a minha filha ter entrado com uma pulseira laranja nas urgências, e não lhe terem feito análises, uma TAC, um raio-x, o que fosse. e ainda me dizerem que era tudo psicológico.

Deixo-vos aqui o meu testemunho que vale o que vale e os meus votos de muita saúde para todos, porque ninguém merece uma dor destas.”

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