“Gostava que lesses esta curta carta daqui a uns anos” carta a recém nascido encontrado no lixo

Carta ao bebé milagre
(na esperança que a possas ler um dia)

1.
Gostava que lesses esta curta carta daqui a uns anos. Estou a escrevê-la quando ainda estás no hospital e não se sabe o que acontecerá a seguir – para onde irás, que família será a tua e tudo o resto de que, se porventura me estiveres agora a ler, já conhecerás a resposta.

2.
O país ficou suspenso de ti. Foste abandonado num ecoponto pela tua mãe. Um senhor que vagueava pelas ruas à procura de alguma coisa para comer, um anjo perdido, um anjo talvez de asas murchas ouviu-te chorar. E resgatou-te ainda com vida.

3.
Não tens um nome, julgo que te batizaram de Salvador. Mas és gente. E és forte. Muito forte. Quantos bebés no teu lugar teriam sobrevivido? Se porventura existe mesmo um destino que destino será o teu? Que planos existirão para ti?

4.
És filho de um buraco negro, de uma profunda sombra. Não sei se já perdoaste à tua mãe, espero que o tenhas feito – por terrível que possa parecer a alguns e a ti próprio, espero que sim. Porque o sossego das feridas que não se veem dependerá disso, dependerá da forma como conseguires domar o inferno. Talvez não tenhas sido feito com amor, talvez não tenhas sido desejado, talvez a tua vida venha a ser terrível por isso ou bela por isso. Não dependerá apenas de ti, seria simples se assim fosse, mas é importante que saibas que estás por tua conta. Importante que saibas que, no final das contas, és tu o que importa, tu e o que a vida te propõe.

5.
Mas está tudo bem. Escrevo numa sexta-feira, passam uns minutos pelas oito da noite e não tarda irei para casa. Jantarei com os meus filhos e falarei de ti. Da tua vontade de viver. Da tua coragem mesmo antes de saberes o que é coragem. Da tua poderosa capacidade de existir, de ter uma hipótese. Do teu grito de esperança, também. É assim que o vejo, sabes? Tantos de nós para aqui borrados de medo de existir, tantos de nós que nos limitamos a sobreviver, tantos de nós que vivem sem realmente viver, quando tu, feito de sombra, rua e miséria, nos mostraste o caminho.

6.
Ah, a tua mãe, não me posso esquecer. Foi dela que saíste, rapaz. Foi ela que te deu vida. E te condenou a seres para sempre o bebé milagre, o bebé de quem me lembrarei sempre que tiver medo de existir. Sem ela nada teria sido possível. Com o resto, não te importes. Vive apenas, cumpre o destino de seres uma luz.




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