Suse Antunes deixou uma longa mensagem nas redes sociais.

Texto publicado por enfermeira portuguesa tem sido amplamente divulgado nas redes sociais. Enfermeira ficou chocada quando viu fotografias de pessoas a passear, este domingo, na Marginal da Póvoa de Varzim em plena pandemia.

Suse Antunes, uma enfermeira portuguesa, divulgou na sua página pessoal do Facebook, um texto onde se mostra indignada com as pessoas que estão a desrespeitar o Estado de Emergência do país.

A profissional de saúde não consegue compreender o facto de existirem pessoas que ignoram os apelos feitos pelas autoridades de saúde portuguesas. A mesma encontra-se isolada da família e lamenta ter perdido os primeiros passos da filha, de forma a não contagiá-la.

“Acabei de chegar a casa, após mais um turno, no qual só consultei o telemóvel para ver se o meu marido me tinha dito alguma coisa. A minha novidade de hoje é que a minha filha de 15 meses já anda! E eu perdi esse momento, nem tão pouco sei quando os vou voltar a ver…

O meu marido e 2 filhos foram viver com os meus sogros por tempo indefinido pelo medo que tenho de os contagiar. O meu miúdo mais velho de 3 anos tem uma doença genética rara e tem feito progressos incríveis, desde que nasceu. Mas não vou poder presenciar ao vivo durante algum tempo o evoluir desses progressos. Também não vejo a minha restante família, pais, irmão, avós, tios…

O meu circuito é apenas casa-trabalho, só paro para pôr combustível e é quando após um depósito cheio chega à reserva. Idas às compras são de longe a longe e tento comprar tudo o que acho que vou precisar para pelo menos 2 semanas. Tudo isto com o objectivo de sair o menos número de vezes e contactar com o menor número de pessoas que me é possível.

Ora, qual não é o meu espanto, quando percebo que neste belo dia em que eu estive a trabalhar e quando sai da sala de isolamento e retirei o equipamento tinha a cara no estado em que podem ver (tal como acontece com todos os colegas. Talvez daqui por uns dias já surjam pequenas feridas, no lugar das marcas…), aparentemente a malta andou a passear imenso.. Mas que lindos! Toda a gente a caminhar na marginal, toda a gente a fazer grandes aglomerados…

Quando se diz que podem sair de casa para dar uma voltinha e manter a sanidade mental minha gente, é para irem passear o cão, ir levar o lixo, e aproveitar e dar uma volta maior ao bairro e tal, se virem que não há muita gente na rua… E, ainda assim, pelo tempo mais limitado possível…. Não é para isto que se viu hoje!!

Portanto, só tenho a dizer que quando estiverem no estado desse Senhor que está ilustrado na imagem, eu e os meus colegas lá estaremos para vos receber… E saibam que vamos manter o nosso profissionalismo e apresentar um sorriso sempre que ajudarmos a salvar vidas…. Mesmo que sejam as vossas vidas irresponsáveis!

Mas depois lembrem-se…
Lembrem-se que os profissionais de saúde estiveram lá a dar tudo, a dar o litro enquanto vocês andavam a expor-se ao risco desnecessariamente… Lembrem-se das famílias que estão separadas para não correrem riscos enquanto cuidam de vocês, irresponsáveis!

Lembrem-se do cansaço físico e psicológico extremamente agressivo pelo qual estão e vão passar os profissionais de saúde nestes tempos e de como vocês contribuíram para isso!

Ah, e se possível, quando estivermos a lutar por melhores condições, para que nos reconheçam as profissões de risco, para que nos paguem qualquer coisita a mais devido à exposição a esses mesmos riscos, para que nos deixem reformar um pouco mais cedo devido ao desgaste rápido que sofremos…

Lembrem-se de não nos chamarem malandros, bandidos, selvagens e outros adjectivos semelhantes…. Porque estes malandros, bandidos e selvagens estão a tentar salvar a vida às pessoas…. Algumas delas irresponsáveis!
Lembrem-se de que hoje perderam o direito a ir bater palminhas à janela, quando foram fazer o vosso passeio no meio da enchente… Porque isso é um verdadeiro desrespeito para com a sociedade em geral e para os profissionais de saúde que andaram a aplaudir…

Se nós queremos força? Se nós queremos manifestações de apoio? Claro que sim! Mas de preferência por pessoas que estão a fazer a sua parte para nos ajudar, ficando em casa!!”