Rosendo Guimarães vive há seis anos em Pequim, e nos últimos seis meses viveu numa espécie de quarentena, como todos os outros cidadãos chineses. Diz que se sente algo incomodado com a despreocupação que vê em Portugal.

Numa carta, o advogado deixa uma carta aberta aos compatriotas, onde explica a seriedade com que deve ser enfrentado esta pandemia.

Caro compatriota,

Espero que estejas bem e de saúde (ainda)! Por cá há melhorias… Além do céu azul e amenas temperaturas com que Pequim nos tem brindado, os casos estão a diminuir drasticamente.

No entanto, continuo encerrado em casa. Aqui, a possibilidade de circular livremente sem pensar em mim e nos outros é mínima. Além de me medirem a temperatura à entrada do condomínio caso eu queira sair, tenho um cartão de residente que penduro sempre ao pescoço se circular neste pequeno condomínio com uns 30 mil habitantes; os ginásios estão encerrados; os bares também; os restaurantes já estiveram também e agora só permitem três pessoas por mesa, depois de medir a temperatura, facultar dados pessoais e assinar com a temperatura medida devidamente escrita.

O pior já passou, mas o início do pesadelo foi como o que estás a viver. E tudo chegou silenciosamente.

Num dia estava a regressar de férias de Natal e não havia notícias sobre o vírus. Uma semana depois fiz uma viagem no sudeste asiático. Regressei no dia 15 de Janeiro, tudo parecia completamente normal e nem no aeroporto se fazia adivinhar o apocalipse.

Quatro dias depois começou o pânico. Autocarros mais vazios, corrida às máscaras, rumores sobre um vírus, mas não liguei muito. Pensei que fosse passageiro e vi a cidade deserta como consequência do Ano Novo Chinês – irónico… o ano do rato que começou com uma pestilência… Pequim, a grandiosa Pequim de avenidas e obras faraónicas tornou-se uma cidade fantasma que parecia ter sido abandonada à pressa!

Dia 23 de Janeiro, às 10 horas da manhã, percebi a gravidade da situação. Fecharam uma província no sul da China que tem tantos habitantes como Espanha; fecharam restaurantes, parques, cinemas, ginásios, bares, pequenos estabelecimentos de serviços; começaram os cancelamentos de rotas áereas de e para a China, caindo um por um… Lufthansa, Air France, Turkish, British Airways, Air Canada, KLM, etc., etc.; o Vietname fechou as fronteiras, Hong Kong e Taiwan seguiram o caminho.

Senti-me preso na China!

Nesse dia e nos seguintes, recebi telefonemas e mensagens de amigos, colegas e familiares a pedirem-me para regressar, muito preocupados com a situação.

Confesso que me assustei, mas não perdi a esperança nem a confiança. Apesar de reconhecer a radicalidade das medidas adotadas pela China, percebi que a luta contra a epidemia não depende só dos profissionais de saúde nem das barricadas do Governo – depende da consciência pessoal e de cada um perceber a gravidade de uma epidemia que agora é pandemia, não andar na rua no meio de multidões, não ver isto como férias e motivo para justificar má vida ou até para açambarcar bens, desconsiderando o bem comum e os outros – e isso abrange não andar a usar máscaras que fazem falta aos profissionais de saúde em festas provincianas, usando-as como objetos de ornamentação na cabeça!

Como milhões de chineses, segui as recomendações de ficar em casa, desinfetar as mãos, colaborar com as autoridades locais na recolha de registos de viagem e de medições de temperatura. Mas não comprei toneladas de comida para alimentar um jardim zoológico. Acumulei, e isso confesso, água, muita água, porque tendo os minimercados e os hipermercados fechados para o Ano Novo, tive receio de ficar sem água potável para beber – a água aqui não é potável e, embora se possa ferver, terá sempre metais pesados, o que é nocivo – em Portugal, como na generalidade dos países desenvolvidos, pode beber-se água da torneira.

Estou há dois meses praticamente fechado em casa, onde montei o meu escritório e onde trabalho. Não minto, saio esporadicamente, porque é simplesmente incomportável passar o dia todo sozinho fechado em casa, dividindo-a com um animal de estimação, sem ver espaços nem pessoas, mas… há uma diferença: a China tem uma capacidade de mobilização de massas que mais nenhum país tem. Consegue meter um guarda em cada condomínio com um medidor de temperatura; polícias e guardas em todas as entradas das estações de metro com medições de temperatura, em todas as portagens, aeroportos, auto-estradas; os funcionários dos restaurantes e de edifícios são obrigados a fazer o mesmo e assim se faz a triagem.

Tens mais de 37,3º, metem-te numa ambulância com uns gajos vestidos de “astronautas” e vais logo fazer exames, devidamente isolado e afastado do mundo.

Em que isso é bom? Não é bom, ninguém gosta, mas resulta! Mas dissuade-te de sair de casa, porque vais meter a mão à testa várias vezes e achar sempre que estás mais quente do que o normal, vais pensar encher-te de paracetamol antes de sair de casa, vais ter medo de ser medido – isso

Acontece-me e já acusei 37,1º e só à segunda ou terceira vez me deu 36,8º -, e se estiveres com febre, independentemente do motivo, és logo levado para um hospital (não tens escolha, ou vais a bem ou arrastado).

Aí em Portugal, caro compatriota, isso não é possível. Além de as pessoas não viverem em blocos de apartamentos fechados por quatro portões com um guarda, como nas cidades chinesas, ninguém vai conseguir controlar de antemão se tu ou o desconhecido do comboio ou metro estão infetados e a espalhar o apocalipse! As pessoas em Portugal vivem nas suas vivendas, nos seus apartamentos com porta direta do prédio para a rua, os escritórios não têm segurança ou guardas e poucos são os condomínios fechados, as estações de metro e comboio são de livre circulação abertas diretamente para a rua e somos poucos. Não se consegue meter alguém a medir temperaturas em todo o lado, nem a obrigar as pessoas a ficar em casa. Vi vídeos assustadores, de situações assustadoras, as quais, como podes entender, não posso partilhar. Mas o facto é que resultou.

Hoje, Pequim, uma cidade com 21 milhões de habitantes, tem 80 infetados. Já teve 500 e morreram alguns, mas sinto-me seguro. Aliás, tenho mais medo de ir a Portugal. Ridículo, não achas?

A situação inverteu-se: ao invés de viver preocupado com a situação cá, vivo preocupado com a situação aí, porque tenho amigos, colegas e familiares e temo que Portugal seja a nova Itália do Covid-19.

Acompanhando de longe, não sei de medições de temperatura nos aeroportos, nas estações de metro, nos comboios, nos restaurantes, shoppings, bares, discotecas e praias! E isso é perigoso, sabes porquê? Porque assim o nosso amigo Covid-19 pode viajar e infetar-te silenciosamente e tu podes infetar silenciosamente os teus queridos amigos e familiares e alguns, em vez de poderem viver até aos 70 anos, vão morrer aos 40 e 50. Ainda achas que isto é uma brincadeira e uma palhaçada?

A China é a segunda maior economia do mundo, o país mais povoado do mundo, e está a sacrificar a economia para conter o vírus! E acredita, nenhum chinês gosta de perder dinheiro – isso é como tirar-lhe a vida! Se isto fosse apenas uma palhaçada como os memes que vês diariamente na página do Facebook, ou como os peritos de café que dizem que a gripe mata mais pessoas por ano, não andaria o mundo inteiro alarmado, a paralisar economias e tráfego internacional.

Nenhum país está preparado para isto!

Por isso, o conselho que te dou, com base na minha primeira (e espero que seja única) experiência de pandemia e de quarentena – levo-te dois meses de avanço – é que não te armes em Rambo (nem ele vive para sempre), que ouças os conselhos dos profissionais de saúde, os avisos oficiais, que te sujeites à quarentena, que não esvazies prateleiras de supermercado pensando que estás a ser mais inteligente do que os outros, porque só estás a demonstrar ser idiota e egoísta, que não vás para a praia sujeitar-te a ser infetado e depois infetares os teus queridos amigos e familiares, que compres umas garrafas e bebas uns copos em casa em vez de ires para discotecas e bares, que subscrevas a Netflix, que faças uns cursos grátis no Coursera para te tornares mais competitivo no mercado de trabalho, que, se não gostas de ler, aproveites para começar agora, podes mandar vir da Wook e não precisas de te enfiar na FNAC, que trabalhes a partir de casa se te for possível, que te dediques à jardinagem se tiveres um jardim.

Não é como estar preso, porque os presos não têm acesso à internet, não escolhem o menu do jantar nem podem contemplar livremente o Sol através de uma janela que não seja aos quadradinhos. Acredita, custa menos do que parece. Eu estou a conseguir. Vivo há dois meses inteiramente sozinho no meu T1, num condomínio onde sou o único ocidental e estou a conseguir! Tu estás no teu país, vives na tua língua e cultura. Também consegues…

Rosendo Guimarães da Costa

Pequim, China”